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Escrever um pouco do que tem sido esta aventura de ser mãe de um menino prematuro não é nada fácil para mim. Esta aventura começou de forma inesperada e sem razão aparente. Depois da surpresa inicial, outras tantas surpresas estavam à nossa espera. De nascimentos prematuros é claro que já tinha ouvido muitas histórias o que eu não sabia era que existiam crianças prematuras de poucas semanas que poderiam sobreviver; o meu rapazote nasceu às 28 semanas. Descobri depois que o seu vizinho no hospital nasceu de 24 semanas e seis dias, aí comecei a querer saber mais, queria saber o que esperar, o que normalmente se passa durante a sua luta, o que de pior e melhor pode acontecer, etc, etc... Hoje sei que podemos ler tudo o que existe mas o caso do nosso filho é sempre único e assim são todos os casos! 
Estive uma semana no hospital onde o meu filho esteve internado, ia vê-lo quando queria e isso ajudava muito; As primeiras 24 horas são muito importantes e depois de passadas o médico/especialista deu-me os parabéns por o meu bebé ser tão forte e reagir tão bem, respirando quase sem ajuda alguma; Esta alegria durou pouco pois ao fazerem-lhe uma radiografia do tórax o enfermeiro engana-se e faz a rádio mais baixa do que previsto e descobrem que existe ar no abdómen...de onde vem, o que é???? Ninguém sabe e como ele tinha a cipap resolveu-se entuba-lo para ver se seria daí que o ar vinha... 
A partir desse momento são inúmeros os altos e baixos por que passou este meu filhote, se o desenvolvimento de um prematuro nunca é previsível o percurso do meu foi ainda mais. A sua vida correu sempre perigo apesar de engordar muito bem; Quando se achava que se tinha encontrado a “solução” para o tal problema os médicos eram surpreendidos pela negativa; isto foi durando até quase à data da sua saída; Quando os outros da mesma idade deixam de fazer apneias eis que o meu gorducho começa a fazê-las, mas não fazia apneias daquelas em que um cheirinho de oxigénio é o suficiente para voltar ao normal, não; ele parava pura e simplesmente e tinha de ser reanimado; A primeira vez que fez uma apneia é claro que ele escolheu dar tal surpresa à sua bela mamã. Nunca se esquece o tom acinzentado, o corpo mole e sem reacção, a máquina a apitar, as enfermeiras a gritarem pela médica, a médica a falar-lhe “aguenta, vá coragem”, o tempo interminável que tal durou...depois ver e sentir todo o bloco em alerta. Depois da primeira muitas outras vieram, sem explicação aparente e sempre forte. Vi reanimarem-no várias vezes e sabia que a falta de oxigénio pode trazer muitas complicações; O caso do meu filhote era raro e estava debaixo de olho de todos os que por ali passavam. Fazia apneias mas ao mesmo tempo nunca foi “dependente” do oxigénio como quase todos os grandes prematuros que ali se encontravam. Depois de estabilizadas as apneias lá veio para casa com um monitor que apitava sempre que fazia uma apneia; Se fosse o caso e se necessário teríamos de o reanimar como nos ensinaram no mini curso que tivemos no hospital. Ficou em casa uma semana, no domingo de Páscoa achei-o menos bem e o monitor apitou várias vezes...ligo para o hospital que conhecia bem a sua história e dizem-me que por lá passe, eu desconhecia que por medidas de higiene e segurança uma criança que sai da neonatologia já não volta a entrar pois pode ter vírus/bactérias mortais para os outros prematuros; assim como enquanto lá esteve foi infectado por uma bactéria que uma vez passada a porta do hospital desapareceu, ao sair recebe outras tantas coisas que a ele nada fazem mas a outros mais fracos pode ser mortal.

Desta vez hospitalizado na pediatria, o pesadelo começa com o erro de um enfermeiro que contrariando as indicações da médica dá ao meu rapazote umas gotas para o nariz similares às que a médica aconselhou...ele reagiu muito mal e foi para observação. Garantiram-nos que as gotas não lhe fariam ficar no estado lastimável em que depois se encontrou, mas este episodio nunca me saiu da cabeça; Teve pneumonia e pouco davam pela sua vida...se conseguisse recuperar seria operado ao refluxo pois parecia que tinha um refluxo forte, não daqueles que os faz constantemente vomitar leite ou líquidos mas dos piores, daqueles que não se vêm e que gota a gota vão envenenando os pulmões até ao seu fim! Não conformada com o operarem como última hipótese só poderia aceitar as opiniões dos diferentes médicos que tiveram a santa paciência de ouvirem as minhas angustias de mãe; O piolhico recuperou da pneumonia, foi operado e mais uma vez mostrou a sua força não precisando de ajudas para respirar...em alguns dias estávamos de novo em casa. Neste caminho tumultuoso quando vim para casa depois do nascimento e da semana passada no hospital a acompanhar o meu bebé a primeira coisa que fiz foi, claro, vir à internet procurar toda a informação possível e essas informações eram muitas e diferentes e depressa percebi que cada caso é um caso e que o melhor é encontrar alguém que possa dar-nos força para tudo o que vier; Eu encontrei desde logo este site e a magnífica Ana, ela que continua a ajudar quem passa por aquilo que ela própria passou, ela que tem sempre uma palavra de encorajamento e de forma lúcida nos obriga a olhar em frente e a pensar no melhor. Foi com ela que muitas vezes desabafei. Dizer-lhe obrigada por tudo aquilo que ela fez por nós, é pouco. Sei que como mãe de um apressadinho (como ela diz) também o seu coração se enche de ansiedade cada vez que a rotina do seu filhote é abalada por algo; No entanto acredito que a sua força veio a dobrar em forma de filho e foi assim que ele superou todas as provas. Este texto foi-lhe prometido à muito tempo mas eu não considerei o meu filho salvo até ele completar os dois anos de vida, parvoíce eu sei, mas ainda hoje tenho dificuldade em acreditar que o pior já passou. Mas não pensem que isso me impede de ralhar, castigar e fazer cara feia ao meu rapazola, não; é que ele é um traquina de primeira, com um feitiozinho terrível e obstinado, é um campeão que quer à força superar tudo aquilo que o irmão, três anos mais velho, sabe fazer.

Quando eu conto esta história a quem não nos conhece as pessoas não acreditam que aquele rapagão foi um baguinho de arroz que tanto lutou pela sua vida. E não posso esquecer as palavras do especialista que é responsável pela neonatologia e que segue o desenvolvimento dos prematuros quando voltámos à sua consulta (um ano depois da primeira), vejo o seu ar de espanto ao ver o meu filhote e ele no fim da consulta diz-me: “ Sempre pensei que o seu filho nos fosse dar grandes problemas, vê-lo hoje é um enorme prazer!” Eu sei que sim e só tenho a agradecer ao meu filhote o facto de ser meu filho! Sem a força dele nada teria sido possível.
Dulce mãe de um Vitorioso
Março, 2009
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