O Campeão Gonçalo Imprimir E-mail
Escrito por Sandra Martins   

A minha gravidez correu normalmente até às 32 semanas, sem enjoos, sem nenhum problema, sem qualquer percalço. Mas, no dia da ecografia das 32 semanas, tudo mudou. Foi detectado que o Gonçalo sofria de uma deficiência de crescimento causada por insuficiência placentária. E que tinha de nascer! O mais rápido possível. Porque senão, não sobreviveria.
Foi um choque. Ir fazer uma ecografia de rotina e sair para a Maternidade Alfredo da Costa com ordem de internamento imediato. Aí fiquei dois dias para tomar as injecções de corticóides. Os pulmões do Gonçalo tinham de amadurecer. Tinham de se preparar para enfrentar o mundo mais cedo do que o previsto.
Na manhã do 3º dia, o CTG detectou arritmias no batimento cardíaco do bebé. O Gonçalo estava a desistir de lutar. Tínhamos de o fazer nascer.
Ás 10h30 mandaram-me descer para o bloco operatório. Ia ser feita uma cesariana de urgência. Chorei e chorei antes da operação. Tinha medo que o Gonçalo desistisse antes de sair para este mundo. E já tínhamos chegado tão longe juntos. quase 33 semanas.
A operação demorou 10 minutos. Às 11h33m do dia 1 de Julho de 2005, 1 mês e meio antes da data prevista (13 de Agosto) o Gonçalo chegou. E não chorou. A pediatra massajou-o e só então ele reagiu. Ainda assim, 8 pontos ao nascer, e 9 aos 5 minutos de vida: um campeão de resistência.
Beijei-lhe as mãos e a testa e levaram-no para a célebre sala 5. Só aí ficou 2 dias. Passou depois para a incubadora na Unidade de Cuidados intermédios.
E a partir daí não há história porque evoluiu sempre bem, sempre favoravelmente, sem recuos, sem hesitações, sem dúvidas. Ele queria viver. E nós queríamos tanto, tanto, que ele vivesse. Eu passava os dias na Maternidade e ao fim da tarde o Pedro juntava-se a nós. Íamos jantar e regressávamos para o pé do nosso tesouro. Só o deixávamos pela meia - noite, para não sermos inconvenientes.


Hoje, o Gonçalo tem quase 4 anos. No entanto, a memória daqueles dias, daqueles 25 dias de internamento e de evolução sempre sem recuos permanece vívida na minha memória como se tivesse sido ontem. Quem o vê não imagina que nasceu depressa demais. Tem 1,05m e pesa 17,50 kg. É um rapagão e continua cheio de amor pela vida. Adora o colégio e os amiguinhos, adora jogar futebol, correr e saltar.
É certo que adoece mais do que eles. É certo que tem muitos problemas alérgicos. Mas continua uma força da natureza, sempre alegre, sempre a sorrir, mesmo quando está doente e a mãe não pode de preocupação e o espreita à noite para ver se respira bem. Ainda hoje, já quase 4 anos passados, já não são necessários espelhos embaciados para lhe testar a respiração, que é hoje mais forte e audível, mas a preocupação continua a mesma.
Desconfio que continuará sempre, mesmo que passem 20 anos.

Sandra Martins
Abril 2009

 
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