para a Inês Imprimir E-mail
Escrito por Ana Salvador   

PARA A INÊS

Às 6 da tarde dei entrada nas urgências da MAC, o prognóstico era terrível – o meu João teria de nascer, com 26 semanas de gestação. Nessa altura não era permitido ter junto a mim ninguém. Ali estava eu, sentada num banco corrido, sozinha, cheia de medo, pois não sabia o que poderia acontecer ao meu filho. À minha volta um caos próprio de um serviço de urgências, que contribuía a cada segundo para aumentar o meu já enorme estado de ansiedade.

Via a minha família pela fresta de uma porta que por vezes se abria, mil olhos na minha direcção e eu chorava porque precisava de os ter junto a mim. O meu marido enviava-me mensagens pelo telemóvel, eu sentia-o apavorado com tudo o que estava a acontecer. “Pede ao segurança para te deixar entrar, pede!” dizia eu. Mas não deixavam.
Passado um pouco recebo uma mensagem a dizer que uma senhora iria ter comigo. Mas quem perguntava eu.
Assim, conheci a Inês.

A Inês era voluntária na MAC. Porque há sempre um amigo, do amigo, que é amigo, telefonaram-lhe avisando-a que havia uma Ana que estava sózinha nas urgências e que precisava de alguém. Soube mais tarde que antes de ir ter comigo a Inês foi perguntar à minha família o meu nome e saber porque é que eu estava ali!

Chegou ao pé de mim, com olhar vivaço, apresentou-se e disse-me que não era preciso falar, que estava ali para me fazer companhia. Comecei novamente a chorar… deu-me a sua mão de forma decidida. E ali estivemos, grande parte do tempo em silêncio, mas a Inês estava ali ao meu lado, esteve sempre ao meu lado até eu ser atendida, já no final da noite. A Inês, nesse dia, tinha um jantar em sua casa, mas dizia com tranquilidade, que já tinha tudo preparado e que não era um motivo de preocupação.

Nunca mais nos vimos. Mais tarde enviei-lhe uma mensagem a agradecer-lhe o que fez por mim naquele dia. Disse-lhe que se Deus lhe tinha destinado uma missão, que a Inês a tinha cumprido comigo.

Lembro-me muito da Inês, muito mesmo. As pessoas têm por hábito afirmar que quando Deus fecha uma porta, abre de seguida uma janela. Não concordo em nada com esta frase. Julgo que Deus abre todas as portas, nós, por vezes, é que não damos com a fechadura. A Inês metaforicamente foi, nesse dia, a minha chave mestra, a companhia que tanto me estava a fazer falta.
Inês a sua missão foi sem dúvida cumprida, mas sei que não está acabada. Provavelmente já outras “Anas” precisaram de si e a Inês mais uma vez esteve por perto.

Obrigada Inês do fundo do meu coração.

com carinho,

Ana

(Junho 2007)

 
< Anterior   Próximo >